Zürcher Nachrichten - Geração perdida da Ucrânia vive aprisionada em um 'eterno lockdown'

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Geração perdida da Ucrânia vive aprisionada em um 'eterno lockdown'
Geração perdida da Ucrânia vive aprisionada em um 'eterno lockdown' / foto: OLEKSII FILIPPOV - AFP

Geração perdida da Ucrânia vive aprisionada em um 'eterno lockdown'

Com o bigode começando a aparecer e um boné de beisebol na cabeça, Bohdan Levchykov seria um adolescente comum em qualquer lugar do mundo se ele não personificasse a tragédia que se abateu sobre uma geração de jovens ucranianos após quase quatro anos de guerra.

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Seu pai, Stanislav, um militar de carreira, foi morto defendendo Kharkiv, a segunda cidade do país, algumas semanas depois da invasão russa, em fevereiro de 2022. Esgotada após tudo o que ela e a família viveram, sua mãe, Iryna, de 50 anos, foi diagnosticada recentemente com câncer de útero em estágio três.

Bohdan não conhece mais ninguém de sua idade em Balakliia, sua castigada cidade natal, ocupada pelo Exército russo de março a setembro de 2022, e depois retomada pelas forças ucranianas. Mas por sua localização, a apenas 70 km da frente de batalha, ainda é bombardeada regularmente.

"Minha mãe e eu voltamos alguns dias depois de a cidade ter sido libertada, e não havia mais crianças ou lojas abertas, nada", relembra. Apenas uma fração dos 26.000 habitantes que viviam na cidade antes da guerra voltou, e são idosos em sua maioria.

A pista de skate e as margens do rio Balakliika, onde os jovens costumavam se reunir para se divertir, foram minadas pelos russos. Desde então, foram desminadas, "mas dizem que ainda não é seguro" ir lá, conta o adolescente de 15 anos.

Bohdan assiste às aulas integralmente online e seus dias são interrompidos por alertas de ataques aéreos. Os nove lances de escada que levam até o porão são demais para sua mãe doente, então eles deixam um colchão na pequena entrada de seu apartamento, o único local sem janelas. "Nós nos acostumamos a nos virar sozinhos. Somos uma equipe unida", diz Bohdan com um sorriso.

"Não é só Bohdan. Todas as crianças se adaptaram muito rápido", conta sua mãe. "Esta geração... Eu não sei o que será deles".

Ela não é a única que se questiona o que a guerra fez com as crianças ucranianas.

Cerca de um milhão de jovens ucranianos ainda vivem em um lockdown eterno, assistindo às aulas integral ou parcialmente online. Primeiro foi a pandemia, em março de 2020, depois a invasão russa - seis anos passando a maior parte do tempo em frente ao computador da família para estudar e se divertir.

Este isolamento é particularmente sentido na região de Kharkiv, na fronteira com a Rússia, alvo de ataques diários.

Alguns poucos bares e restaurantes permanecem abertos até o toque de recolher, às 23h, antes dos inevitáveis ataques noturnos com drones e mísseis russos. Pelas manhãs, ouve-se o ruído de equipes de voluntários consertando tudo o que pode ser salvo.

Aproximadamente 843 estabelecimentos de ensino foram ou destruídos ou danificados na região - um quinto do total nacional, segundo a página saveschools.in.ua., do governo ucraniano.

O site investigativo Bellingcat - com o qual jornalistas da AFP em Kiev e Paris trabalharam nesta reportagem especial - registraram mais de 100 testemunhos em fotos e vídeos nas redes sociais de ataques russos em ou perto de instituições de ensino ou áreas de lazer para jovens em ou no entorno de Kharkiv.

Crianças aos prantos foram evacuadas quando uma creche municipal foi atingida em outubro de 2022. "Vamos achar sua mãe agora mesmo", diz um socorrista para uma menina pequena, enquanto ele a resgata dos escombros e da fumaça, segundo registro em vídeo gravado pela polícia.

- Escolas subterrâneas -

Cada vez mais crianças frequentam escolas subterrâneas na cidade. Yevenhelina Tuturiko tem ido a uma desde setembro, alguns metros abaixo do nível da rua, sem luz natural.

"Eu realmente amo", diz a menina de 14 anos, "porque posso falar pessoalmente com meus colegas de novo".

Ironicamente, Yevenhelina precisou atravessar a Europa para "encontrar a maioria dos meus amigos atuais" em Kharkiv, após ser convidada para uma "viagem de alívio", organizada pela Prefeitura de Lille, no norte da França, para devolver às crianças ucranianas o sabor da normalidade.

Até o fim do ano, Kharkiv terá dez escolas subterrâneas, segundo a Prefeitura da cidade.

A prioridade é para turmas em que a maioria das crianças ficou em Kharkiv durante os combates mais intensos, no início da invasão, quando as forças russas investiram contra os subúrbios da cidade. Cerca de 70% das crianças foram evacuadas em um momento ou em outro, tanto para o exterior quanto para o oeste da Ucrânia.

As crianças passam apenas metade da jornada em bunkers para dar espaço a outras, e terminam o dia com aulas online.

A escola que a AFP visitou foi construída segundo os padrões de um abrigo nuclear, com uma porta com blindagem reforçada. "Provavelmente somos um dos abrigos mais seguros de toda a Ucrânia", diz, orgulhosa, a diretora Natalia Teplova.

- "As crianças estão enlouquecendo" -

Todas as atividades esportivas ao ar livre estão proibidas na região de Karkhiv pelo temor de ataques russos. Mas fora do ambiente escolar, as coisas são mais nebulosas.

"As competições oficiais estão proibidas, mas não somos geridos pelo estado, então fazemos do nosso jeito", diz o técnico de futebol e ex-soldado Oleksandr Andrushchenko, enquanto grita para seus jovens jogadores.

Os poucos pais à beira do gramado "entendem que seus filhos não se desenvolveram (atleticamente) desde a época da covid. E que é melhor para eles jogar futebol do que ficar grudados no celular", acrescenta.

No maior complexo aquático de Kharkiv, a educadora Ayuna Morozova concorda: "Não dá pra viver com medo constante".

O enorme edifício em estilo brutalista da era soviética fechou as portas após ser atingido em dois intensos bombardeios, em março de 2022, e reabriu em maio de 2024. Agora, quando as janelas se quebram devido às ondas de choque de bombardeios próximos, elas são cobertas com plástico ou madeira compensada.

"A água e a natação curam tudo", afirma Morozova, convicta. "Primeiro, foram dois anos de covid, depois quatro anos de guerra. As crianças estão enlouquecendo", diz. O complexo agora também tem um espaço com hidroterapia para soldados amputados.

Com seus cabelos cor de fogo e jeito caloroso, Ayouna faz jus à origem tártara de seu primeiro nome, que significa "Grande Urso". Mas, como todos aqueles que a AFP entrevistou, as feridas da guerra vêm à tona rapidamente. Ela ficou soterrada sob uma pilha de escombros depois de um ataque aéreo contra um edifício público, em 2022. "Eu ainda tenho pesadelos", confessa. "Evito espaços fechados e elevadores. E, sim, vou ao psicólogo".

A Ucrânia não tem recursos para avaliar o impacto da guerra em seus jovens.

"Não temos psicólogos suficientes", admite Oksana Zbitneva, diretora do centro de coordenação do governo para saúde mental. Para tentar compensar isso, "130.000 profissionais de saúde da linha de frente - enfermeiras, pediatras, médicos da família - receberam treinamento em saúde mental, certificado pela Organização Mundial da Saúde", afirma.

Enquanto "alguns países construíram seus sistemas (de saúde mental) ao longo de 50 anos, fomos os últimos a começar por causa do nosso legado soviético", acrescenta.

O governo abriu 326 "centros de resiliência" para crianças e seus pais em todo o país, e "mais 300" devem ser construídos no próximo ano, segundo o ministro de Assuntos Sociais, Denys Ulyutyn.

- Autoflagelação -

Quando a AFP esteve com a psicóloga Maryna Dudnyk em meio a campos de girassóis em Khorosheve, 15 km ao sul de Kharkiv, ela tinha terminado uma jornada de três horas de oficinas para cerca de 50 crianças com idades entre 6 e 11 anos a fim de ajudá-las a expressar seus sentimentos.

Enquanto sua equipe guardava os coletes à prova de bala - o protocolo de segurança exige que eles os levem consigo - ela dizia que "a guerra teve um impacto enorme no estado emocional dos jovens, todos vivemos sob estresse".

Em seu consultório, ela diz ouvir "muito sobre medo e ansiedade nas crianças... Adolescentes sofrem com autoflagelação e pensamentos suicidas".

Dudnyk, de 50 anos, que trabalha para a ONG ucraniana "Voices of Children", também tem suas próprias feridas - ela deixou sua cidade natal, Mariupol, que foi ocupada pelo Exército russo após um cerco brutal. "Não temos mais um lar, nada. Tudo foi destruído", diz.

Alguns adolescentes desenvolveram uma espécie de escudo emocional. Illia Issaiev detestava quando sua família fugia dos combates cruzando a fronteira para a Rússia. Os meses que eles passavam lá antes de voltar fizeram com que ele se tornasse um nacionalista ucraniano ainda mais ferrenho.

O adolescente de 18 anos afirma ser um líder em Kharkiv do grupo ultranacionalista Prav Molod ("Juventude direitista", em tradução livre).

A AFP o encontrou enquanto ele treinava um grupo de jovens na operação de drones militares, sua especialidade. "Tempos difíceis deixam as pessoas mais fortes. Nossa era é para produzir pessoas fortes, que irão construir um país bom", afirma.

Mas isso não é tão simples para Kostiantyn Kosik, que precisa de remédios para lidar com tiques, fraquezas e dores de cabeça. "Estou constantemente nervoso, no limite. É por causa da guerra. Isso tem um efeito enorme na minha saúde", diz o jovem, também de 18 anos, vestindo roupas pretas.

Kostiantyn é originário da região de Donetsk, devastada por confrontos desde a revolta separatista apoiada por Moscou em 2014. Ele cresceu na cidade de Avdiivka, em ruínas, que caiu sob controle russo após meses de intensos combates.

"Eu conheço a guerra desde os seis anos de idade. A princípio, era muito interessante para um garotinho - os tanques, os soldados, as armas automáticas. Quando cresci o bastante para entender, ficou muito menos divertido", diz.

Ele passou semanas abrigado no porão de casa, enquanto esta era destruída por explosões. Todos os seus vizinhos fugiram dali.

"Um certo dia, aquilo me endureceu. Mas eu teria preferido uma infância normal, com amigos, com alegria", afirma em seu quarto, decorado com uma pintura de sua cidade natal.

- "Eles continuam a sonhar" -

Assim como a maioria dos quatro milhões de deslocados internos da Ucrânia, a família de Kostiantyn apenas sobrevive. Eles alugaram uma casa sem calefação em Irpin, perto de Kiev. A mãe do rapaz passa os dias cuidando de seu padrasto, acamado após sofrer uma série de ataques cardíacos por causa do conflito.

Kostiantyn se sente orgulhoso de estudar direito internacional na Universidade de Irpin e - apesar de não ser fluente em inglês - diz que quer trabalhar "protegendo os direitos humanos na Ucrânia e em outras partes do mundo".

No final de 2023, pesquisadores da Organização Mundial da Saúde (OMS) entrevistaram 24.000 jovens ucranianos com idades entre 11 e 17 anos e descobriram uma "deterioração no bem-estar psicológico" e um declínio "significativo" na felicidade que diziam sentir.

Mas, também encontraram um "nível razoavelmente elevado de resiliência às adversidades dos tempos da guerra".

Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelou, em agosto, que para estes jovens, ser submetidos a provas escolares era uma fonte de estresse maior do que ouvir as sirenes de ataques aéreos, o que "sugere, de forma preocupante, que a guerra se tornou parte da vida cotidiana para muitas crianças".

"Crianças perderam seus pais, seus amigos e estão dormindo em abrigos antiaéreos", afirma o ministro de Assuntos Sociais, Denys Ulyutyn. "E mesmo assim elas continuam a viver, a sonhar", assegura.

Quando Bohdan, o adolescente de Balakliia, não está desenhando, ele brinca e conversa remotamente com seus "novos amigos". Ele passa grande parte do tempo conversando com uma menina chamada Lana, com quem "tem muitas coisas em comum".

Bohdan também tem um sonho. "Eu realmente quero me encontrar com Lana. Eu falei com minha mãe a respeito. Talvez nossos pais possam arranjar algo". Mas Lana mora em Dnipro, mais de 400 km a sudeste de onde ele está - um outro mundo na Ucrânia destes tempos de guerra.

Enquanto isso, Balakliia foi alvo de outro ataque que matou três pessoas em 17 de novembro, a 300 metros do prédio onde mora Bohdan.

A.Ferraro--NZN