Zürcher Nachrichten - Ativista libertado diz que 1.675 dias de prisão são 'dor demais para um ser humano'

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Ativista libertado diz que 1.675 dias de prisão são 'dor demais para um ser humano'
Ativista libertado diz que 1.675 dias de prisão são 'dor demais para um ser humano' / foto: Federico PARRA - AFP

Ativista libertado diz que 1.675 dias de prisão são 'dor demais para um ser humano'

O reconhecido ativista venezuelano Javier Tarazona fez um apelo à reconciliação em seu país em uma entrevista exclusiva à AFP neste domingo (1º), poucas horas depois de ser libertado após 1.675 dias em uma prisão de Caracas, onde viveu "dor demais para um ser humano".

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A libertação de Tarazona, de 43 anos, ocorre dois dias depois de o governo interino de Delcy Rodríguez anunciar, sob pressão dos Estados Unidos, o fechamento da prisão política do Helicoide e uma lei de anistia geral.

Rodríguez assumiu o poder após a captura de Nicolás Maduro em um ataque americano com bombardeios em Caracas e cidades próximas, em 3 de janeiro.

"1.675 dias em um lugar escuro (...) Não é possível que esse tipo de caso continue se repetindo (...) que tenha sido necessário acontecer o que aconteceu no último mês para que nós tivéssemos que sair", afirmou Tarazona após ser libertado do Helicoide, uma das prisões mais temidas do país.

Ele foi acusado de "terrorismo" e "traição" durante um processo judicial que classifica como errático, com uma infinidade de audiências adiadas, sem condenação nem absolvição.

"Acho que a Venezuela precisa se reconciliar, reconciliar-se justamente na justiça", considera Tarazona.

A presidente Rodríguez propôs na sexta-feira reformar o sistema de justiça venezuelano, questionado por numerosas ONGs e organismos internacionais.

- Tratos desumanos -

Tarazona garante que, na prisão, sofreu constantes torturas físicas e psicológicas. "Um dia de prisão já é muito para um ser humano. Um dia de prisão é dor demais para um ser humano", disse em entrevista à AFP.

"Vivi a dor do cárcere, da prisão, (minha) família a 900 quilômetros, quatro filhos me esperando, meus estudantes, minha gente, as vítimas...", contou.

"Foram momentos dolorosos, momentos que eu não desejaria a ninguém", disse ao sair da igreja de La Candelaria, no centro de Caracas, onde foi libertado.

Por isso, considera insuficiente o futuro fechamento do Helicoide, que a presidente encarregada afirmou que será transformado em um "centro social, esportivo, cultural e comercial".

"O fechamento do Helicoide não resolve o problema da injustiça neste país. Se fechar o Helicoide for apagar uma memória, acho que é preciso trabalhar para que isso não se repita", afirmou.

Tarazona diz ter trabalhado o perdão, mas ressalta que "há muita gente ferida, com cicatrizes, com cicatrizes emocionais", razão pela qual propõe "transformar a cultura" das forças de segurança.

"Essas ações de tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, no fim das contas, o que fazem é ampliar a ferida social, ampliar lesões que duram geração após geração", refletiu, ao defender todos os detidos do país.

"Dos 84 mil prisioneiros que há hoje na Venezuela, 30 mil estão em centros policiais que não estão aptos para isso, em condições deploráveis", comentou. "Não é apenas o Helicoide que precisa ser revisto. É preciso revisar todos os centros penitenciários".

- "Mais comprometido" -

Tarazona foi aplaudido por fiéis na igreja La Candelaria, onde rezou após sua libertação. Dezenas de pessoas gritaram "Liberdade!" após sua chegada.

"As pessoas aplaudem por um grande anseio de liberdade, por uma esperança de reencontro dos venezuelanos, de alegria. Acho que as pessoas estão ávidas disso, desejando com todas as forças que possamos nos abraçar com alegria, com entusiasmo, sem medo", opinou.

"O país precisa que não se instaurarem leis para prejudicar o outro, para silenciá-lo politicamente. Que haja respeito à liberdade individual, que exista a possibilidade de se expressar", acrescentou.

Após sua libertação, Tarazona pensa na reconstrução do país. "O reencontro é aí, com o venezuelano que sofre, com aquele que hoje não tem o que comer, com aquele para quem o salário não é suficiente, com esse venezuelano que hoje sofre e anseia por mudança", apontou.

Seu desejo pessoal é reencontrar seus familiares. "Encontrar meus filhos, encontrar minha mãe, meus irmãos, aqueles que mais sofreram", confessou.

E, ao mesmo tempo, pensa em seus planos futuros.

"Eu saio para construir o país que sonhamos, saio para trabalhar. Sou docente, sou professor (...) eu saio para trabalhar, para minha sala de aula, para continuar defendendo os mais vulneráveis, os mais fracos, os que mais sofrem neste país", afirmou.

"Naquele lugar de escuridão encontrei luz; hoje estou mais comprometido."

B.Brunner--NZN