Zürcher Nachrichten - Cientistas fazem pão com levedura encontrada nas entranhas de uma múmia

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Cientistas fazem pão com levedura encontrada nas entranhas de uma múmia
Cientistas fazem pão com levedura encontrada nas entranhas de uma múmia / foto: Andrea Solero - AFP/Arquivos

Cientistas fazem pão com levedura encontrada nas entranhas de uma múmia

Nos intestinos de uma múmia congelada chamada Ötzi, descoberta nos Alpes em 1991, cientistas descobriram que havia se desenvolvido uma levedura... com a qual fizeram pão.

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Este homem da Idade do Bronze, conhecido como "o homem das neves" e que morreu atingido por uma flecha nas costas há 5.300 anos, passou por um processo de mumificação natural pouco comum: suas células, literalmente congeladas, conservaram sua umidade.

O corpo, descoberto por excursionistas em 19 de setembro de 1991 em uma geleira na fronteira entre Itália e Áustria, está tão bem conservado que desde então é uma mina de informações para os pesquisadores.

Seus restos, preservados no museu de Bolzano (Itália), são mantidos na mesma temperatura (-6 °C) em que foram encontrados.

Estas condições não impediram que micro-organismos — tanto antigos quanto recentes — continuem ativos no corpo congelado, segundo um estudo publicado na quarta-feira na revista Microbiome.

"O que não esperávamos era encontrar levedura", diz à AFP Mohamed Sarhan, principal autor do estudo e pesquisador no instituto Eurac Research de Bolzano.

- Fermento "muito bom" -

Os cientistas descobriram quatro tipos diferentes de levedura capazes de sobreviver a temperaturas abaixo de zero nos intestinos de Ötzi, em sua pele e em uma água "amarronzada" resultante do descongelamento parcial da múmia.

Estes fungos microscópicos só vivem em ambientes muito frios, como a Antártica ou os Alpes.

A análise genética revelou "níveis de danos no DNA muito comparáveis aos dos micróbios originais" presentes nos intestinos do "homem de gelo", o que sugere que a levedura chegou lá pouco depois de sua morte, explica Sarhan.

"Estas leveduras acompanharam Ötzi em sua longa viagem através dos milênios", observa Frank Maixner, coautor do estudo, em um comunicado.

Os cientistas posteriormente reproduziram esses fungos em um refrigerador. "Quando você diz que tem levedura, logo perguntam: dá para usar para fazer pão?", comenta Sarhan. E foi exatamente isso que a equipe fez.

"No começo, não funcionou", conta o microbiologista. Mas, após três meses de tentativas, "obtivemos um fermento natural realmente muito bom", afirma, acrescentando que a equipe agora cogita produzir cerveja.

O estudo também menciona outras finalidades mais sérias para estes micro-organismos.

Quando a múmia foi descoberta, foi inicialmente tratada como um cadáver normal, com um produto químico, o fenol, usado para impedir o desenvolvimento de fungos.

Mas a levedura foi capaz de degradar o fenol. Por isso, os cientistas acreditam que, no futuro, ela poderia ser usada para decompor esse produto químico em ambientes contaminados.

- Fibras e cereais integrais -

Este fungo não foi a única descoberta surpreendente no corpo de Ötzi. Uma análise de sua microbiota revelou a presença de uma bactéria intestinal praticamente inexistente em seres humanos modernos. Embora tenha desaparecido dos estômagos das populações de países industrializados, ela foi detectada em algumas tribos da África e da América do Sul.

Também foi encontrada em excrementos de 3.000 anos preservados em uma mina de sal em Hallstatt (Áustria), uma das poucas outras fontes que permitem observar a microbiota humana antiga.

Ötzi e esses mineiros de sal da Idade do Bronze consumiam mais fibras e cereais integrais do que os seres humanos modernos, observa Sarhan.

O estudo conclui que "o homem de gelo não é uma cápsula do tempo biologicamente 'congelada', mas sim um ecossistema complexo".

Nikolay Oskolkov, pesquisador do Instituto Letão de Síntese Orgânica, que não participou do estudo, explica à AFP que é interessante constatar que "a microbiota do 'homem de gelo' não está 'congelada'".

Mas o pesquisador, que havia descoberto anteriormente fungos nos intestinos da múmia, ressalta que as amostras de levedura só foram coletadas em 2010 e 2019.

Isso representa "provas muito escassas de que as leveduras tenham se multiplicado ao longo dos milênios", avalia ele, considerando que se trata de elementos "relativamente recentes no corpo da múmia".

A.Senn--NZN