Zürcher Nachrichten - O verdadeiro preço do ouro: agricultores e indígenas contra febre do garimpo no Paraguai

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O verdadeiro preço do ouro: agricultores e indígenas contra febre do garimpo no Paraguai
O verdadeiro preço do ouro: agricultores e indígenas contra febre do garimpo no Paraguai / foto: Daniel DUARTE - AFP

O verdadeiro preço do ouro: agricultores e indígenas contra febre do garimpo no Paraguai

Em um pequeno povoado paraguaio, o agricultor Vidal Brítez mostra as folhas impregnadas de um pó vermelho liberado pelas lavras vizinhas de onde se extrai ouro. "Os compradores não aceitam mais nossa erva mate", lamenta.

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A descoberta do metal precioso em Paso Yobái (210 Km a leste de Assunção), há mais de 20 anos, transformou o povoado: agora, um em cada seis de seus 30.000 habitantes passou a abrir enormes poços para vender terra misturada com ouro.

Mas agricultores e povos originários se sentem atropelados e exigem que o território do garimpo seja delimitado, uma pretensão inegociável para os garimpeiros.

O lugar "é o berço da erva mate", diz o agricultor de 56 anos. Com esta folha (Ilex Paraguariensis) prepara-se uma infusão apreciada no sul da América Latina.

Mas, "ultimamente já perderam todo o respeito", prossegue, referindo-se aos garimpeiros. Grandes escavações já são feitas às margens das vias, assegura.

Depois de conversar com a AFP, em 27 de março, Brítez foi detido por "coação grave" em relação com um protesto dos agricultores, quando cerca de 15 deles enfrentaram uns 50 garimpeiros encapuzados, armados com paus, pedras e inclusive armas de fogo, exigindo-lhes que deixassem a área.

"Nós bloqueamos sua passagem, ameaçaram passar por cima de nós" com carros, contou na ocasião Brítez, que preside a Associação de Produtores de Erva Mate.

"Destruíram tudo ao redor de Paso Yobái: cursos d'água, nascentes, pântanos. Pela cor, pelos peixes mortos, descobre-se a contaminação. As águas são vermelhas...", diz.

Pequenos grupos de agricultores acampam em várias áreas para impedir a abertura de novas lavras e tanques, de onde se extrai o ouro com ajuda de ais a apertura de cianeto ou mercúrio, dois neurotóxicos, em um processo chamado lixiviação.

A canadense Latin American Minerals Paraguay (Lampa SA), que tem concessão desde 2012, terceiriza os garimpeiros artesanais.

Em 2024, foram exportados no total 600 Kg de ouro, gerando 260.000 dólares (cerca de R$ 1,6 bilhão, na cotação da época) em benefícios para o Estado, com uma cotação internacional que beira os 3.000 dólares (R$ 17,2 mil, na cotação atual) a onça, diz o vice-ministro de Minas e Energia, Mauricio Bejarano. "A rentabilidade está garantida", comemora.

- "Anarquia" -

A história de Paso Yobái, uma comunidade escondida atrás da Cordilheira de Ybytyruzú, cujos primeiros habitantes encontraram sustento na erva mate, mudou quando um garimpeiro equatoriano encontrou uma pepita dourada no córrego Itá, em meados dos anos 1990.

Agora, o povoado se transformou em um formigueiro, onde filas de caminhões transportam areia até os tanques de processamento que, avaliados em 80.000 dólares (R$ 461 mil), substituem cultivos extensos por grandes fossas de até 80 metros de extensão por dez de profundidade.

Os garimpeiros afirmam que há menos de 150 escavações, mas os agricultores estimam que sejam mais de 300, a maioria ilegais. Cada uma pode produzir um quilo de ouro em um ou dois meses.

O garimpo artesanal "é uma anarquia" e nele "muita gente está envolvida, empresários e políticos poderosos", comenta à AFP o engenheiro agrônomo Rubén Irala Galeano.

Sua preocupação é compartilhada pelo cacique Nery Cardozo Benítez, de 40 anos, líder da comunidade Mbyá Guaraní: "Os produtos químicos que usam são muito fortes. Evaporam no ar e contaminam nossos animais", diz.

Em outra aldeia, o também líder da etnia Mbyá Guaraní, Mariano Benítez, repete como uma ladainha: "Os peixes morrem. Não temos água potável". E acrescenta: "O recurso natural é de todos, não é só para os ricos, nem para as autoridades".

- "Disputa" -

Mas o vice-ministro Bejarano pede provas desta contaminação. "Até agora, que eu saiba, não há nenhuma denúncia" ao Ministério Público ambiental, responde, consultado pela AFP. "O que há é uma disputa pelo território".

O Paraguai "não realizou um inventário nacional de mercúrio", diz em sua página na internet o Programa da ONU para o Meio Ambiente.

Irala, que, como coordenador da Pastoral Social, participa de uma pesquisa das universidades Nacional e Católica, que deve ser publicada em breve, antecipa que se está "cometendo um crime ecológico em Paso Yobái".

Mas o secretário da Associação de Garimpeiros, Rubén Villalba, assegura que agricultores e indígenas carecem de informação profissional e científica para sustentar suas denúncias, e compara o uso do mercúrio ao da água sanitária para a limpeza: "É veneno se mal usada".

O vice-ministro de Minas e Energia também considera que o impacto ambiental do ouro "é ínfimo".

Irala responde a eles dizendo que é preciso substituir o cianeto e o mercúrio por um produto sintético ecológico e pede que o governo siga o determinado pela Convenção de Minamata, que visa a eliminar o uso de material tóxico na mineração. O tratado, assinado por 128 países, entre eles o Paraguai, entrou em vigor em 2017.

Caso contrário, "vamos ter uma migração forçada", adverte.

F.E.Ackermann--NZN