Zürcher Nachrichten - De Gaza ao Líbano, o cirurgião que opera crianças feridas na guerra

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De Gaza ao Líbano, o cirurgião que opera crianças feridas na guerra
De Gaza ao Líbano, o cirurgião que opera crianças feridas na guerra / foto: Joseph EID - AFP

De Gaza ao Líbano, o cirurgião que opera crianças feridas na guerra

Três semanas de guerra no Líbano e nenhum descanso para o médico Ghassan Abu Sittah, um cirurgião que, entre uma operação e outra, descreve à AFP uma “corrida contra o relógio” para salvar crianças feridas nos bombardeios israelenses.

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No Hospital Universitário Americano de Beirute, sua unidade de cuidados intensivos pediátricos recebe os casos mais críticos de todo o país, junto a pais desesperados.

No dia em que falou com a AFP, o fogo atingiu um quarteirão no centro da capital, e três crianças foram resgatadas com vida debaixo dos escombros, gravemente feridas.

“Uma menina de 11 anos tinha estilhaços no abdômen e o pé parcialmente amputado […] mas vai sobreviver”, relata o médico, que vive no campus universitário e corre para o centro cirúrgico sempre que há uma emergência.

No Líbano, bombardeado por Israel após os ataques do movimento Hezbollah em 2 de março, já morreram 118 crianças e 370 ficaram feridas, segundo o último balanço oficial, que continua aumentando.

O médico palestino-britânico, especialista em reconstrução, enumera os ferimentos que vê todos os dias: membros arrancados, traumatismos cranianos, lesões cerebrais, estilhaços no rosto e nos olhos.

“Muitas vezes vemos tudo isso em uma só criança. Isso significa que ela terá de se submeter a muitas cirurgias”, aponta o homem de barba grisalha e olheiras profundas, visivelmente exausto.

- Não é apenas um número -

Aos 57 anos, Abu Sittah já viu de tudo. Dedicou a vida a atender civis feridos nas crises que cobrem de sangue o Oriente Médio.

A violência é uma “doença endêmica” na região, comenta, desalentado, mas “a gente nunca se acostuma” ao sofrimento das crianças, porque “uma criança nunca deveria se tornar anônima, um simples número”, insiste.

Sua primeira experiência em um conflito foi em 1991, quando era estudante de Medicina e testemunhou os estragos da guerra do Golfo após a retirada das tropas iraquianas do Kuwait, onde nasceu, filho de um refugiado palestino de Gaza e de uma mãe libanesa.

Ali ele descobriu sua vocação. Do Reino Unido, onde obteve seu diploma, viajou para Gaza durante a Primeira Intifada; para o sul do Líbano bombardeado por Israel em 1996; para o Iraque e o Iêmen, além de voltar à faixa palestina a cada nova guerra.

Em 2023, escapou por pouco de um ataque contra um hospital em Gaza, onde passou 43 dias após o início das represálias israelenses que se seguiram ao ataque de 7 de outubro.

Para Abu Sittah, o paralelismo com o que acontece hoje no Líbano é evidente.

“É uma Gaza em miniatura”, ressalta. Embora a taxa de mortalidade seja menor, as infraestruturas e os profissionais de saúde também estão pagando um preço muito alto.

- Ambulâncias bombardeadas -

Com os bombardeios incessantes sobre os subúrbios do sul de Beirute, “perdemos quatro hospitais [forçados a evacuar], um dos quais tinha uma importante unidade de urgências pediátricas”, acrescenta.

Várias crianças gravemente feridas também morreram porque não puderam ser transferidas a tempo de zonas rurais em que os centros de saúde têm menos recursos, segundo o médico.

“As ambulâncias são alvo dos israelenses, e transferir crianças [...] é muito perigoso. Essas transferências só podem ser feitas de dia e levam muito tempo”, explica.

Radicado em Beirute há vários anos, em 2024 ele criou o Fundo para a Infância Ghassan Abu Sittah, cujo objetivo é fornecer atendimento médico em Gaza e no Líbano, mas também um acompanhamento integral uma vez que as crianças recebem alta.

Seu paciente mais jovem tem quatro anos. Seus pais e seus três irmãos morreram em um bombardeio; ele perdeu um pé, além de apresentar uma lesão na cabeça e precisar de um acompanhamento físico e psicológico intensivo a longo prazo.

“A quem confiá-lo? Quem vai cuidar dele?”, questiona. “Muitas crianças vêm de contextos pobres que não têm condições de enfrentar tudo isso […] Não é só o corpo que fica destruído, é toda a estrutura familiar”, destaca.

F.Schneider--NZN