Zürcher Nachrichten - Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão

EUR -
AED 4.174355
AFN 71.598812
ALL 91.632908
AMD 412.979093
ANG 2.034737
AOA 1043.30081
ARS 1727.203113
AUD 1.621349
AWG 2.045687
AZN 1.934455
BAM 1.954507
BBD 2.289245
BDT 140.117271
BGN 1.913219
BHD 0.42849
BIF 3424.033991
BMD 1.136493
BND 1.454537
BOB 13.734943
BRL 5.905102
BSD 1.136628
BTN 109.001711
BWP 15.539349
BYN 3.45961
BYR 22275.260339
BZD 2.285856
CAD 1.607297
CDF 2625.297894
CHF 0.941806
CLF 0.02773
CLP 1094.942266
CNY 7.627402
CNH 7.633845
COP 3809.955982
CRC 516.73075
CUC 1.136493
CUP 27.278467
CVE 110.192075
CZK 24.40732
DJF 201.977369
DKK 7.476066
DOP 67.544705
DZD 152.170725
EGP 58.804073
ERN 17.047393
ETB 185.645872
FJD 2.556825
FKP 0.857631
GBP 0.860388
GEL 2.971945
GGP 0.857631
GHS 13.172355
GIP 0.857631
GMD 84.100245
GNF 9996.384441
GTQ 8.680255
GYD 237.794843
HKD 8.913315
HNL 30.504544
HRK 7.533129
HTG 148.750249
HUF 366.255856
IDR 20448.91629
ILS 3.463178
IMP 0.857631
INR 109.133944
IQD 1489.001484
IRR 1562194.692673
ISK 137.186039
JEP 0.857631
JMD 179.261366
JOD 0.805761
JPY 180.606907
KES 147.118986
KGS 99.385962
KHR 4623.675629
KMF 492.101238
KPW 1022.843948
KRW 1557.097858
KWD 0.351085
KYD 0.947094
KZT 502.056818
LAK 25475.347276
LBP 101777.379904
LKR 375.141733
LRD 195.484289
LSL 18.672243
LTL 3.355768
LVL 0.687453
LYD 7.269157
MAD 10.88285
MDL 20.224836
MGA 4982.417698
MKD 61.478232
MMK 2386.142893
MNT 4089.032612
MOP 9.181037
MRU 45.498889
MUR 54.301499
MVR 17.558504
MWK 1970.748373
MXN 20.136801
MYR 4.643028
MZN 72.633353
NAD 18.672079
NGN 1506.989088
NIO 41.832316
NOK 10.817969
NPR 174.415573
NZD 2.010405
OMR 0.436982
PAB 1.136568
PEN 3.850652
PGK 5.063627
PHP 71.406213
PKR 314.913166
PLN 4.382123
PYG 6735.423999
QAR 4.143085
RON 5.276965
RSD 117.514493
RUB 96.598969
RWF 1681.446674
SAR 4.269073
SBD 9.092525
SCR 15.713087
SDG 683.600772
SEK 11.294898
SGD 1.455143
SHP 0.858054
SLE 28.014513
SLL 23831.678103
SOS 649.558694
SRD 42.840149
STD 23523.107931
STN 24.483366
SVC 9.945418
SYP 14776.680643
SZL 18.667646
THB 38.071938
TJS 10.473324
TMT 3.98909
TND 3.362275
TOP 2.736402
TRY 55.522568
TTD 7.730408
TWD 36.208438
TZS 3006.0214
UAH 51.172009
UGX 4460.969248
USD 1.136493
UYU 45.53806
UZS 13423.116646
VES 968.782269
VND 29539.722793
VUV 134.691135
WST 3.127422
XAF 655.957
XAG 0.017905
XAU 0.00026669597
XCD 3.071429
XCG 2.048318
XDR 0.803559
XOF 655.957
XPF 119.331742
YER 268.951396
ZAR 18.699092
ZMK 10229.800046
ZMW 22.105814
ZWL 365.950242
SSP 6492.319944
MXV 2.282084
Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão
Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão / foto: © ا ف ب

Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão

Centenas de ex-soldados colombianos foram atraídos para a guerra civil no Sudão com promessas de salários atraentes dos Emirados Árabes. Mas muitos deles encontraram a morte em um campo de batalha distante, e aqueles que sobreviveram estão envolvidos em crimes graves.

Tamanho do texto:

Esta investigação revela como mercenários colombianos foram parar do outro lado do mundo, em uma rede de guerra, lucro e silêncio que se estende dos Andes aos campos de extermínio na região sudanesa de Darfur.

"Até hoje, seu corpo não foi repatriado", disse à AFP a viúva de um ex-soldado colombiano morto no Sudão, que não quis ter seu nome divulgado, por medo de represálias.

O ex-soldado, 33, viajou para o Sudão em meados de 2024. Ele integrava um grupo enviado por empresários sancionados pelos Estados Unidos para um conflito que já deixou dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados ameaçados de fome.

A partir de depoimentos, registros corporativos e verificações de imagens nos campos de batalha, a AFP revela como colombianos reforçam as fileiras das Forças de Apoio Rápido (FAR), um grupo paramilitar acusado de genocídio. Seguem abaixo as principais descobertas:

* Recrutados pela internet, a maioria deles foi levada para o Sudão via Emirados Árabes, onde recebeu treinamentos rápidos.

* Usaram pelo menos duas rotas para chegar ao Sudão: pelo leste da Líbia, leal aos Emirados, ou por uma base aérea em Bosaso, na Somália, que abriga militares emiradenses.

* Imagens verificadas de mercenários e testemunhas os situam em combates sangrentos em Darfur.

* Um ex-coronel colombiano sancionado pelos Estados Unidos é apontado por um antigo sócio como cérebro da operação de envio de 2.500 mercenários para lutar ao lado dos paramilitares das FAR no Sudão.

- País em chamas -

O Sudão está mergulhado em uma guerra entre as FAR e o Exército - controlado pelo governo de fato desde 2023 -, alimentada por interesses dos Emirados Árabes, do Egito, do Irã e da Arábia Saudita, entre outros.

Mercenários estrangeiros, principalmente de países africanos, como Eritreia e Chade, surgiram em ambos os lados. Mas a operação mais sofisticada é a dos colombianos, cobiçados por sua experiência com drones e artilharia, que recebem entre US$ 2.500 e US$ 4.000 mensais, cerca de seis vezes o que ganham do Exército, segundo um ex-militar.

O governo americano sancionou neste mês quatro colombianos e suas empresas que fazem parte dessa rede, sem mencionar o elo emiradense: a empresa Global Security Services Group (GSSG), sediada em Abu Dhabi.

Os Emirados negam as acusações do Sudão e de organizações internacionais de suposto apoio aos paramilitares. Segundo um funcionário do alto escalão do governo emiradense, isso faz parte de um "padrão de desinformação" para "desviar a atenção do trabalho vital de acabar com essa guerra brutal".

- Treinamento de crianças -

Familiares dos mercenários sofrem em silêncio. O marido da viúva colombiana morreu três meses após embarcar para o Sudão em meados de 2024, quando a campanha paramilitar para tomar o oeste de Darfur cambaleava.

Embora relatórios apontem dezenas de milhares de rebeldes, eles têm pouca experiência e equipamento. São hábeis em incursões brutais, mas não em operações de longo alcance, como os colombianos.

Com o apoio dos sul-americanos, segundo os Estados Unidos, a milícia tomou em outubro El Fasher, último reduto do Exército, em meio a relatos de execuções em massa, sequestros e estupros.

Vídeos geolocalizados pela AFP mostram colombianos dentro e no entorno da cidade antes de ela ser tomada. Em um veículo blindado, eles atravessam as ruínas do campo de refugiados de Zamzam, enquanto ouvem reggaeton. "Está destruída", diz um deles, com sotaque colombiano.

O campo foi invadido pelos milicianos em abril. Mais de 400 mil pessoas fugiram e até mil foram assassinadas, no que sobreviventes chamam de massacres étnicos.

Imagens mostram o homem com sotaque colombiano posando com crianças e fuzis. Outras mostram seus companheiros ensinando um combatente a acionar um lança-foguetes. Fotografias posteriores mostram o corpo ensanguentado do homem, chamado de "comandante".

O governo sudanês afirma que até 80 colombianos somaram-se ao cerco desde agosto, e que 43 foram mortos. Segundo a chancelaria colombiana, vários deles foram enganados por "redes de tráfico de pessoas".

- 'Interessado em trabalhar?' -

Um ano após se aposentar, um suboficial colombiano especializado em drones recebeu no WhatsApp uma mensagem incomum: “Algum veterano interessado em trabalhar? Procuramos reservistas de qualquer força."

O ex-militar, 37, que contou sua história à AFP, disse que solicitou informações, e que uma pessoa, que se identificou como ex-coronel da força aérea, disse a ele que a oferta era em Dubai e pagaria um salário mensal de US$ 4.200.

Todos os anos, milhares de soldados colombianos se aposentam ainda jovens, e recebem uma remuneração baixa. Alguns deles encontram oportunidades na indústria de segurança privada do Golfo.

O ex-militar aceitou a proposta, mas, em telefonema posterior, foi informado de que Dubai seria apenas uma escala de dois meses para "treinamento", e que ele seria enviado para a África em seguida, onde participaria de missões de reconhecimento com drones.

Desconfiado, o ex-militar entrou em contato com um amigo em uma empresa de segurança nos Emirados Árabes, e foi advertido de que, provavelmente, acabaria no Sudão, o que o fez desistir da proposta.

Um dos colombianos que aceitaram a oferta, o ex-militar Christian Lombana, documentou em redes sociais sua viagem até o Sudão via França e Abu Dhabi. O Bellingcat, grupo de pesquisadores que usa dados públicos disponíveis na internet, destaca fotografias que o situam no sudeste da Líbia, em uma área controlada pelo comandante Khalifa Haftar, que tomou o poder com o apoio dos Emirados.

Desde o começo da guerra no Sudão, o território de Haftar tem sido um corredor vital para os paramilitares das FAR, por meio do fornecimento de armas, combustível e combatentes.

Dias após a sua publicação no TikTok, o comboio de Lombana sofreu uma emboscada no deserto de Darfur. Um vídeo viralizado compartilhado por um combatente rival mostra os documentos do ex-militar espalhados na areia, juntamente com fotos de sua família. Em seu passaporte, havia carimbos de entrada nos Emirados Árabes e na Líbia.

O governo colombiano nunca confirmou a morte de Lombana. Outros mercenários, ainda vivos e identificados pela AFP, compartilharam recentemente fotos em Dubai, Abu Dhabi e cidades europeias. Um deles publicou no TikTok vídeos no deserto, em que aparecia vestido com uniforme militar. Outro se descreveu no Instagram como "mercenário".

- Escala na Somália -

Documentos e depoimentos apontam o ex-coronel colombiano Álvaro Quijano como coordenador do negócio. Segundo um antigo sócio ouvido pela AFP, o major reformado Omar Rodríguez, Quijano "suspendeu" a operação após reveses militares em 2024, e a retomou posteriormente, com alterações.

Recentemente, os mercenários passaram a transitar por Bosaso, na Somália. Moradores da região disseram à AFP que viram pelotões de estrangeiros uniformizados no local.

Bosaso fica em Puntland, uma região semiautônoma da Somália onde Abu Dhabi treina, arma e financia uma força marítima da autoridade local desde 2010, segundo especialistas da ONU. Fontes da segurança afirmam que militares emiradenses estão estacionados em uma área isolada do aeroporto.

No mês passado, surgiram relatos de um vazamento no sistema de vistos da Somália, que expôs dados de cerca de 35 mil pessoas, incluindo alguns colombianos que viajaram para o Sudão.

"Temos que investigar, e estamos fazendo isso", disse à AFP o assessor de segurança nacional da Somália, Awes Hagi Yusuf, que destacou a necessidade de provas sólidas e de manter boas relações com os Emirados.

O ministro da Defesa somali declarou ao Parlamento que aviões voaram de Bosaso "em direção ao Chade e ao Níger, com destino ao oeste do Sudão".

Um morador que frequenta o aeroporto a trabalho disse ter visto, entre março e julho, grupos de estrangeiros de pele clara, de "entre 30 e 40 anos, com porte militar, alinhados e transportados em aviões de carga". Ele afirmou que eram escoltados com frequência a uma área do aeroporto que abriga militares dos Emirados.

Ali Jama, outro morador local, disse ter visto em abril estrangeiros com equipamento tático embarcarem em uma aeronave de carga.

Imagens de satélite e rastreadores de voo mostram uma atividade constante de aviões Ilyushin IL-76D nessa pista, iguais a outros identificados pela AFP em bases aéreas nos Emirados e na Líbia.

Várias famílias de mercenários colombianos mortos no Sudão lutam para receber um suposto seguro de vida, uma esperança que as afasta de entrevistas.

- Rota do dinheiro -

Na semana passada, os Estados Unidos sancionaram o ex-coronel Quijano e sua mulher, Claudia Oliveros, por serem figuras-chave de uma "rede transnacional" que recruta colombianos "para lutar ao lado do grupo paramilitar sudanês".

"Desde setembro de 2024, centenas de ex-militares colombianos viajaram ao Sudão para lutar ao lado das FAR", afirmou o Departamento do Tesouro, destacando que alguns deles treinaram menores de idade para o combate.

O ex-major Omar Rodríguez fundou a A4SI como uma agência de emprego em 2017. Ele buscou se associar a Quijano porque o ex-coronel tinha conexões melhores nos Emirados, explicou. Em 2022, endividado, Rodríguez vendeu suas ações à mulher de Quijano, atual proprietária da agência.

O ex-major conversou com a AFP em uma tentativa de limpar seu nome de uma operação "ilegal" de "tráfico" de pessoas que pretende "colocar 2.500 homens" no Sudão.

A AFP obteve 26 documentos assinados por colombianos na Líbia, nos quais eles autorizam a empresa emiradense GSSG a pagar seus salários por meio de uma empresa registrada no Panamá por Claudia Oliveros. Um contrato como "guarda de segurança" adverte sobre consequências "civis e penais" nos Emirados em caso de quebra de confidencialidade.

Registros corporativos emiradenses de 2018 mostram o empresário Mohamed Hamdan Alzaabi como proprietário da GSSG, descrita em seu site como "único fornecedor de serviços de segurança privada armada para o governo dos Emirados".

A GSSG retirou recentemente de seu site uma seção que listava três dos seus clientes: o Ministério do Interior dos Emirados, a chancelaria e o Ministério de Assuntos Presidenciais.

Nem a GSSG nem suas redes associadas na América Latina, como a A4SI, aceitaram falar com a AFP.

- 'Pessoas muito poderosas' -

Os Emirados Árabes negam sua participação na guerra por meio de apoio aos paramilitares, apesar de relatórios de especialistas da ONU, parlamentares americanos e organizações internacionais apontarem o contrário.

"Os Emirados negam categoricamente qualquer acusação de terem fornecido, financiado, transportado ou facilitado" recursos para alimentar o conflito "por meio de qualquer canal ou corredor", respondeu um funcionário consultado sobre a investigação.

Segundo diplomatas e analistas, o país tem interesse em jazidas de ouro, terras agrícolas e na posição estratégica do Sudão, com uma extensa costa no Mar Vermelho.

O Congresso da Colômbia aprovou recentemente uma lei que proíbe o recrutamento de mercenários, após décadas de relatos sobre ex-militares envolvidos em conflitos como os do Haiti, Afeganistão e da Ucrânia.

Mas a medida chegou tarde para um jovem de 25 anos morto em combate no Sudão no fim de 2024. "As cinzas já chegaram à Colômbia", disse à AFP uma mulher, que se identificou como sua prima.

E.Leuenberger--NZN