Enchente deixa ao menos 160 mortos e centenas de desaparecidos na fronteira sino-nepalesa
Ao menos 160 pessoas morreram, nesta quarta-feira (26), depois que a cheia devastadora de um rio em uma região na fronteira entre o Nepal e a China provocou deslizamentos, soterrou prédios e deixou centenas de desaparecidos, muitos deles turistas estrangeiros.
A enchente devastou localidades inteiras no Nepal e um vídeo de segurança checado pela AFP mostrou um prédio de vários andares sendo arrastado por uma enxurrada de lama, enquanto seus moradores tentavam fugir no lado chinês da fronteira.
A polícia nepalesa informou ter recuperado 157 corpos, enquanto socorristas tentam encontrar sobreviventes em uma área montanhosa e de difícil acesso, nas encostas do Himalaia.
A mídia estatal chinesa reportou mais cedo sobre "muitas vítimas" após a catástrofe e depois deu um balanço preliminar de três mortos e 265 desaparecidos.
Não está claro até o momento se havia alguma superposição entre os números chineses e os anunciados pelas autoridades nepalesas, pois a emissora estatal chinesa CCTV indicou que os dados das vítimas ainda estão em processo de verificação.
"Vi como as águas levaram pela frente oito ou nove caminhões, além de casas e pessoas", contou Suman Chalise, professor de 34 anos, na localidade nepalesa de Nuwakot.
"Foi absolutamente desolador (...) Fui testemunha de uma devastação de magnitude que nunca vi igual", acrescentou.
O Nepal é um país empobrecido que atrai muitos visitantes por suas trilhas para caminhada e seu Ministério da Cultura, Turismo e Aviação Civil informou que cerca de 403 turistas, 341 deles estrangeiros, seguem desaparecidos.
O Escritório de Turismo do Nepal informou que neste grupo há 142 indianos e turistas de Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Malásia, Países Baixos, Portugal, África do Sul e Coreia do Sul.
- Povoados inteiros destruídos -
David Fisher, diretor para o Nepal da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) afirmou que "povoados inteiros e zonas de mercados foram destruídos".
A organização está enviando suprimentos de emergência, entre eles cobertores, kits de primeiros socorros, macas e sacos para cadáveres.
Não está clara a causa das inundações, mas o chanceler do Nepal, Shishir Khanal, afirmou que provavelmente um tremor provocou um desprendimento de terra que, por sua vez, bloqueou um rio, provocando o aumento da vazão.
A agência de gestão de desastres nepalesa destacou que dados de satélite da Planet Labs indicam que um "desprendimento de neve e rochas" na fronteira entre o Nepal e a China poderia ter causado as inundações.
O Exército nepalês realiza buscas aéreas e resgatou dezenas de pessoas no distrito de Rasuwa, um dos mais afetados, informou o governo.
O primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, fez um chamado à união, mas também pediu "paciência" à população.
"Quero assegurar-lhes que não estão sozinhos nestes momentos difíceis: o Estado está com vocês com todos os seus meios e recursos", afirmou Shah em um comunicado publicado nas redes sociais.
Em Nuwakot, Raju Bhadel, de 56 anos, contou que seu cunhado tinha telefonado para ele esta manhã.
"Estavam chorando e disseram que sua casa foi destruída. Três membros da família foram resgatados, mas seu irmão segue desaparecido", relatou.
- Riscos de nova enchente -
A emissora estatal chinesa CCTV noticiou, nesta quarta-feira, que "um deslizamento de terra no lado nepalês deixou muitas vítimas e desaparecidos no porto Gyirong", passagem que liga a região autônoma do Tibete ao Nepal.
O presidente chinês, Xi Jinping, afirmou que "o trabalho mais urgente é fazer tudo o possível para buscar e resgatar as pessoas desaparecidas (...), atender rapidamente os feridos e reduzir ao mínimo o número de vítimas", reportou a CCTV.
O mandatário só costuma se expressar depois de catástrofes quando o balanço de mortos é muito elevado.
As inundações e os deslizamentos são frequentes no Nepal e em todo o sul da Ásia na temporada das monções, durante o verão no hemisfério norte.
Segundo os cientistas, as mudanças climáticas aumentam a intensidade e a frequência deste tipo de fenômeno.
Qianggong Zhang, alto funcionário do Centro para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), encarregado de riscos climáticos e ambientais, alertou para a possibilidade de uma nova cheia.
"Dado que ainda há um bloco na parte alta do rio fronteiriço entre o Nepal e a China, as autoridades advertem que poderia ocorrer uma segunda enchente", disse à AFP.
I.Widmer--NZN