Número de vítimas aumenta no Nepal em meio a desastre "inimaginável"
Os socorristas removiam nesta segunda-feira (31), pelo sexto dia consecutivo, lama e escombros em busca dos milhares de desaparecidos deixados pelo deslizamento de terra que devastou, com a força de um tsunami, a fronteira entre a China e o Nepal.
"Nosso país enfrenta um desastre natural de uma magnitude inimaginável e dilacerante", declarou o primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah.
O balanço se agravou ainda mais nesta segunda-feira, com 939 mortos no Nepal e no Tibete, na China, e 4.400 desaparecidos. Corpos não identificados foram enterrados em valas comuns depois que amostras de DNA foram coletadas.
Shibu Giri, trabalhador de uma usina hidrelétrica em Rasuwa, considera-se sortudo por estar vivo.
Uma tripulação de helicóptero "tentou me resgatar três vezes, mas meu corpo estava preso na lama até a cintura", contou o nepalês de 44 anos à AFP.
"Pedi que jogassem água e comida para mim", disse Giri, que finalmente foi resgatado e levado ao hospital.
Em condições perigosas e sob a ameaça de uma nova elevação das águas, os socorristas redobram os esforços para tentar retirar possíveis sobreviventes do mar de lama que sepultou essa remota região do Himalaia.
"As dificuldades são consideráveis", resume o chefe-adjunto do distrito atingido de Nuwakot, o policial E. Hawadi.
"Já não há estradas. Todas foram destruídas pelo deslizamento", disse.
Além das vítimas, mais de 2.500 edifícios foram destruídos no vale do rio Trishuli, no Nepal, segundo uma estimativa da AFP baseada em análises de imagens de satélite do observatório europeu Copernicus.
A polícia nepalesa compartilhou a história do resgate milagroso, na sexta-feira, de uma menina de 6 anos. "Nós a encontramos sob os escombros (...) apenas a cabeça estava para fora", declarou à AFP um de seus agentes, Bahadur Karki, que acrescentou que a menina está fora de perigo.
As autoridades nepalesas procuram cerca de uma centena de trabalhadores que podem ter ficado presos em um túnel de uma obra na região atingida.
- Como um tsunami -
Militares, policiais e guias nepaleses trabalham dia e noite nesses locais de difícil acesso, auxiliados por especialistas vindos da Índia, da China e da Coreia do Sul.
Hospitalizado na capital, Katmandu, o funcionário da usina hidrelétrica Upper Trishuli, Shibu Giri, de 44 anos, descreveu nesta segunda-feira à AFP como escapou milagrosamente do devastador deslizamento.
"Foi como um tsunami, com um barulho enorme e uma enorme nuvem de poeira", contou. "Ao fugir, subimos para as áreas mais altas (...) já não era possível ver nada, realmente achei que não sairia vivo".
Do lado chinês, as equipes de resgate enfrentam as mesmas dificuldades para explorar o coração da área afetada no Tibete, especialmente o posto de fronteira de Gyirong, cujo prédio foi destruído pelas águas.
Especialistas e cientistas atribuem a devastadora elevação das águas de quarta-feira ao desmoronamento de uma enorme geleira, que transformou um rio tranquilo em uma torrente furiosa.
A passagem incessante de helicópteros e patrulhas das equipes de resgate permitiu evacuar milhares de vítimas, mas as autoridades dos dois países continuam sem notícias de cerca de 4.500 pessoas: 3.925 no Nepal, cujas autoridades revisaram para baixo uma cifra anterior, e 546 na China.
Entre elas estão centenas de estrangeiros, turistas, peregrinos ou trabalhadores.
Na China, houve quem questionasse a veracidade do balanço oficial. Dez internautas que sugeriram que as autoridades estariam deliberadamente subestimando os números foram punidos, informou a polícia sem dar mais detalhes.
A presidente da ONG International Campaign for Tibet, Tencho Gyatso, exigiu "informações verificadas e completas" por parte de Pequim.
- Custo de "bilhões" -
As famílias dos desaparecidos continuam se aglomerando nos hospitais e necrotérios de todo o Nepal em busca de informações sobre seus entes queridos.
Esse é especialmente o caso em Bharatpur, no sul do Nepal, onde a força das águas arrastou cerca de 250 corpos por mais de 100 km a partir do início do desastre.
Em um edifício, os familiares são convidados a tentar identificá-los por meio de imagens de vídeo.
Enquanto o necrotério de Bharatpur está lotado de cadáveres, as autoridades começaram no domingo a enterrar alguns deles sem sequer esperar pela identificação, por razões sanitárias.
Esses sepultamentos ocorrem depois da coleta de uma amostra de DNA, esclareceram as autoridades, e têm caráter provisório para as vítimas de religião hindu.
Posteriormente, após uma identificação formal, suas famílias poderão exumá-los e cremá-los, conforme estabelece a tradição.
"Numerosos corpos foram recuperados e começaram a se decompor", justificou um responsável do Ministério das Relações Exteriores, Amrit Bahadur Rai.
Por enquanto, o custo da tragédia chega a "bilhões de dólares", advertiu o governo do Nepal.
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W.Odermatt--NZN