Zürcher Nachrichten - Palestino vencedor do Oscar filma a 'impunidade' israelense na Cisjordânia

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Palestino vencedor do Oscar filma a 'impunidade' israelense na Cisjordânia
Palestino vencedor do Oscar filma a 'impunidade' israelense na Cisjordânia / foto: FADEL SENNA - AFP

Palestino vencedor do Oscar filma a 'impunidade' israelense na Cisjordânia

Equipado com sua câmera, o cineasta palestino Basel Adra, vencedor do Oscar, documenta há vários anos na Cisjordânia ocupada o que ele chama de "impunidade" dos colonos e soldados israelenses quando atacam palestinos.

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De sua varanda, ele aponta para o assentamento israelense de Ma'on. A aparência é de calma, mas ele diz que quase diariamente há incidentes com colonos e os soldados de Israel.

A situação ficou ainda mais grave desde o início da guerra de Gaza, em outubro de 2023, afirma Adra, codiretor de "No Other Land" ("Sem Chão" no Brasil) com o israelense Yuval Abraham, produção que venceu este ano o Oscar de melhor documentário longa-metragem.

"O mundo permite que os israelenses cometam crimes - e lhes dá impunidade", declarou à AFP o cineasta de 29 anos em sua casa no vilarejo de At Tuwani.

Nos nove meses desde que recebeu o maior prêmio da indústria do cinema, Adra concedeu muitas entrevistas e gravou centenas de vídeos da violência dos colonos, supostamente executada sob proteção do Exército.

"Dezenas de comunidades palestinas e moradores de vilarejos fugiram de suas casas neste período devido à violência, aos ataques e aos assassinatos cometidos pelos colonos e pelas forças de ocupação", afirma.

Acompanhando uma equipe de jornalistas da AFP durante uma visita para ilustrar as dificuldades da vida dos palestinos na Cisjordânia, Adra seguiu até o vilarejo beduíno de Umm al Khair.

Para chegar ao local, é necessário passar por um assentamento israelense. Em um muro, uma frase em árabe alerta: "Não há futuro para a Palestina".

Desde o início da guerra em Gaza, consequência do ataque do movimento islamista Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, as agressões dos colonos e as operações militares na Cisjordânia mataram quase 1.000 palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Ramallah.

Durante o período, os ataques palestinos na mesma região mataram pelo menos 43 israelenses, incluindo soldados, segundo números oficiais do Estado hebreu.

- Objetivo -

Nem a presença de ativistas internacionais e israelenses, que pretende dissuadir a violência, conseguiu mudar a realidade dos palestinos na Cisjordânia.

Adra recorda o assassinato de um amigo próximo, o também ativista Awdah Hathaleen, em 28 de julho.

Hathaleen estava filmando "os colonos atravessando com uma escavadeira as terras de sua família e destruindo suas oliveiras e sua cerca", relata o diretor.

A morte de Hathaleen, gravada por outros ativistas e divulgada na imprensa, levou a polícia israelense a abrir uma investigação, mas o ato não foi classificado como assassinato.

"Alguns dias depois que este colono criminoso cometeu os crimes, ele recebeu permissão para voltar ao mesmo lugar e continuar escavando a mesma terra", disse Adra.

O jovem cineasta, que exibe com orgulho a estatueta do Oscar, também foi alvo de ataques e detido diversas vezes.

"Uma vez, os colonos entraram em nossas terras e começaram a nos empurrar e a atirar pedras. Eles carregavam pedaços de pau e um deles tinha uma arma. Dois dos meus irmãos ficaram levemente feridos", conta.

"Ligamos para a polícia. Eles chegaram, mas o ataque continuou enquanto eles assistiam".

O Exército afirma ter recebido relatos de que "vários terroristas" atiraram pedras contra civis israelenses perto de At Tuwani e deixaram dois feridos.

"Forças de segurança foram enviadas ao local, operações de busca foram realizadas na área e os suspeitos foram interrogados", afirmou o Exército à AFP.

Adra denuncia que em Masafer Yatta, o conjunto de vilarejos que inclui At Tuwani, a atividade dos colonos é implacável.

"Eles continuam construindo assentamentos e postos avançados ilegais 24 horas por dia, sete dias por semana", afirma.

Após uma longa batalha jurídica, a Suprema Corte israelense decidiu a favor do Exército em 2022, abrindo caminho para o despejo dos moradores de oito aldeias palestinas da região.

- "Nós vamos ficar" -

No vilarejo de Umm al Khair, algumas casas de concreto estão cercadas por instalações dos colonos: casas móveis que exibem bandeiras israelenses e estruturas permanentes que circundam os beduínos.

Em sua mesa, o líder comunitário Khalil Hathaleen, irmão do ativista assassinado, apresenta as 14 ordens de demolição enviadas em 28 de outubro.

Segundo os documentos do Exército em hebraico e árabe, os moradores têm 14 dias para apresentar recurso.

"Mesmo que todo o vilarejo inteiro seja demolido, nós vamos ficar nesta terra e não iremos embora", afirma Hathaleen. "Porque não temos para onde ir".

Assim como outras comunidades da região, os quase 200 moradores de Umm al Khair são descendentes de beduínos expulsos do deserto do Neguev, no sul de Israel, no início da década de 1950.

Quase três milhões de palestinos vivem na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967. Cerca de 500.000 israelenses vivem na região em assentamentos considerados ilegais segundo o direito internacional.

No final de outubro, o Parlamento israelense aprovou o avanço de dois projetos de lei apoiados pela extrema direita que pedem a anexação do território.

"Ao crescer, eu acreditava muito no direito internacional", disse Adra. "Eu acredito que o material que estou filmando, a documentação, quando for assistido no exterior, alguém vai fazer algo".

D.Graf--NZN